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IX Fórum • Campina Grande, Paraíba • Agosto de 2026

Internet no Brasil em 2026: quem manda, quem paga e por onde passa o cabo

CGI.br e a governança da rede. O fim da Norma 4 e o novo regime dos provedores. A guerra dos postes. As taxas de fiscalização da Anatel. E o que fazer com tudo isso antes de janeiro de 2027.

Percival Henriques de Souza Neto
IX Fórum • Campina Grande
Roteiro

Quatro pautas, uma mesma pergunta: qual internet queremos?

Bloco 1

CGI.br

O modelo multissetorial brasileiro, as eleições 2026-2029 e a nova regulamentação do Marco Civil.

Bloco 2

Fim da Norma 4

O que acaba em 1º de janeiro de 2027 e o que isso muda para cada provedor do país.

Bloco 3

Postes

A novela Aneel x Anatel, o parecer vinculante da AGU e o preço do ponto de fixação.

Bloco 4

Taxas de fiscalização

TFI, TFF e Fistel: a disputa no STF, a posição da AGU e a isenção do IoT.

Cada bloco termina com um recado prático.

Roteiro
BLOCO 1 / CGI.BR

A internet brasileira tem um comitê. E ele é raro no mundo.

Antes de falar de norma, poste e boleto, vale lembrar quem desenha as diretrizes da rede no Brasil.

Bloco 1 • CGI.br
CGI.br / fundamentos

Multissetorial por decreto, referência por mérito

  • Criado em 1995 e regulamentado pelo Decreto 4.829/2003: elabora as diretrizes estratégicas de uso e desenvolvimento da internet no país.
  • 21 conselheiros: governo, setor empresarial, terceiro setor, comunidade científica e um notório saber. Nenhum setor decide sozinho.
  • Administra o registro .br e a distribuição de IPs pelo NIC.br, que financia o sistema sem dinheiro público.
  • Autor do Decálogo de princípios (2009) que inspirou o Marco Civil da Internet.
21
conselheiros, sendo 12 assentos não governamentais eleitos pelos próprios setores
.br
o registro de domínios que sustenta financeiramente toda a estrutura
Bloco 1 • CGI.br
CGI.br / 2026

2026 é ano de eleição também no Comitê

  • Novo mandato 2026-2029 em disputa: entidades de todos os setores registram chapas e votam nos assentos não governamentais.
  • Debate quente sobre reforma da composição: revisão dos órgãos públicos representados, rotatividade de mandatos e cotas de diversidade estão na pauta da sociedade civil.
  • O FIB16, Fórum da Internet no Brasil, aconteceu em maio em Belém, aquecendo os debates que o Brasil levou à agenda global.
  • A pergunta de fundo: como atualizar um desenho de 2003 sem perder o que o tornou referência internacional.
Mexer na composição do CGI.br é mexer no equilíbrio de poder sobre a internet brasileira. Toda reforma precisa ser feita à luz do dia.
Bloco 1 • CGI.br
CGI.br / regulação de plataformas

O Marco Civil ganhou regulamento novo em 2026

jun/2025STF conclui o julgamento do Tema 987 e redefine a responsabilidade das plataformas sobre conteúdo de terceiros.
2025CGI.br aprova os Princípios de Regulação de Plataformas de Redes Sociais e a tipologia de provedores de aplicação.
21/mai/2026Governo publica os Decretos 12.975 e 12.976/2026, regulamentando o Marco Civil da Internet.
mai/2026CGI.br publica nota pública se posicionando sobre os decretos e reafirmando a disposição de contribuir tecnicamente com o debate.

Recado prático: a camada de aplicações está sendo reordenada por decreto e por jurisprudência. Quem opera infraestrutura precisa acompanhar, porque as obrigações descem a cadeia.

Bloco 1 • CGI.br
BLOCO 2 / FIM DA NORMA 4

1995 acaba em 1º de janeiro de 2027

A norma que separou internet de telecomunicação, e que permitiu a explosão dos provedores regionais, foi revogada pela Anatel. O relógio está correndo.

Bloco 2 • Norma 4
Norma 4 / o que era

Uma linha de 1995 que valia bilhões

O texto

Portaria 148/1995, a "Norma 4"

Definiu o Serviço de Conexão à Internet como Serviço de Valor Adicionado (SVA), e não como telecomunicação. Nasceu na era da internet discada, quando conectar exigia dois atores: a telefônica e o provedor.

O efeito

ISS em vez de ICMS, e liberdade de entrada

SVA paga imposto municipal (ISS), não estadual (ICMS), e dispensa outorga da Anatel. Foi essa porta que permitiu a qualquer empresa pequena prestar internet e criar o mercado mais competitivo de banda larga do mundo.

  • Na prática, milhares de provedores dividem a receita entre SCM (conexão, com ICMS) e SVA (serviços agregados, com ISS) para reduzir a carga tributária.
  • Os fiscos estaduais consideram parte dessa divisão uma manobra. A briga judicial se arrasta há anos.
Bloco 2 • Norma 4
Norma 4 / a decisão

Abril de 2025: a Anatel puxou a tomada

2013Resolução 614 já permitia prestar internet sem um segundo provedor. A separação virou ficção técnica.
abr/2025Conselho Diretor da Anatel decide revogar a Norma 4. Argumento: a distinção entre conexão e telecom ficou obsoleta e virou instrumento de planejamento tributário abusivo.
2025-2026Prazo de adaptação. Grupo de trabalho da Anatel chegou a citar a proporção 60% SCM / 40% SVA como referência; acima disso, alerta de malha fina.
01/jan/2027Fim definitivo. Todo acesso à internet fixa passa a ser SCM (ou SMP no móvel), com outorga obrigatória e ICMS integral sobre a conexão. Mesma data de estreia da CBS da Reforma Tributária.
Bloco 2 • Norma 4
Norma 4 / o que muda

Três choques ao mesmo tempo

Tributário

Conexão 100% ICMS

Acaba a classificação da conexão como SVA. SVAs legítimos (streaming, educação, antivírus) continuam existindo com ISS, mas separados de verdade, com contrato e entrega próprios.

Regulatório

Outorga SCM para todos

Pequenos provedores que operavam só como SVA precisam de autorização da Anatel, com taxas, obrigações técnicas, contábeis e de compliance que antes não existiam.

Concorrencial

Pressão sobre os pequenos

Abrint e Abranet alertam: custo novo mais insegurança jurídica pode acelerar consolidação e concentrar o mercado nas grandes redes. O consumidor pode pagar essa conta.

E a Reforma Tributária atravessa tudo: CBS plena em 2027 e IBS substituindo ICMS e ISS até 2033. O provedor vai replanejar o negócio duas vezes na mesma década.

Bloco 2 • Norma 4
Norma 4 / recado prático

O dever de casa antes de janeiro de 2027

  • Regularize a outorga SCM agora, sob as regras atuais de outorga da Anatel, sem esperar a fila de dezembro de 2026.
  • Refaça o modelo tributário: separe SVAs reais da conexão, com contratos, notas e entregas independentes. O split de papel morreu.
  • Simule o caixa com ICMS integral sobre a conexão e com a transição CBS/IBS. Decida preço e portfólio com número, não com esperança.
  • Acompanhe as associações: Abrint e Abranet seguem contestando a medida, e o desenho final ainda pode mudar no Judiciário ou no Congresso.
Bloco 2 • Norma 4
BLOCO 3 / POSTES

Toda fibra do Brasil pendura em um poste que não é seu

O compartilhamento de postes é a infraestrutura invisível da banda larga. Em 2026, depois de mais de sete anos de briga entre agências, o jogo finalmente virou.

Bloco 3 • Postes
Postes / a novela regulatória

Sete anos de cabo de guerra entre Aneel e Anatel

2014Resolução Conjunta Aneel/Anatel nº 4 define as regras básicas de preço e pontos de fixação. É a referência até hoje.
2024Decreto 12.068 determina que as distribuidoras cedam a pessoa jurídica distinta a exploração dos espaços destinados à telecom.
dez/2025Aneel aprova versão do regulamento em que a cessão ao "posteiro" seria facultativa, divergindo do texto que a Anatel aprovara. Preço de referência: R$ 5,84 por ponto (out/2025, corrigido pelo IPCA).
abr/2026Senado aprova o PL 3.220/2019: cria em lei a figura do posteiro, dá à Aneel o preço máximo e à Anatel a isonomia. Segue para a Câmara.
mai/2026AGU publica o Parecer 4/2026, vinculante: a cessão da exploração comercial dos postes é obrigatória. Prevalece a leitura da Anatel; a Aneel terá de rever seu texto.
Bloco 3 • Postes
Postes / onde estamos

O que já vale e o que ainda se decide

  • Cessão obrigatória: a gestão comercial dos pontos de fixação sai do controle direto das distribuidoras de energia. É o fim do juiz que também joga.
  • Cadastro de contratos: a Anatel tornou obrigatório o envio dos contratos de postes por todas as prestadoras de SCM, construindo um cadastro positivo de ocupação regular.
  • Preço em disputa: vale a referência de R$ 5,84 por ponto até a consulta pública definir a metodologia definitiva de preço regulado.
  • PL 3.220 na Câmara: veda subsídio cruzado entre energia e telecom e proíbe tratamento discriminatório entre interessados.
R$ 5,84
preço de referência por ponto de fixação (base out/2025, corrigido pelo IPCA) até a metodologia definitiva
AGU 4/2026
o parecer vinculante que encerrou a divergência entre as agências
Bloco 3 • Postes
Postes / recado prático

Quem se regularizar primeiro negocia melhor

  • Declare seus contratos de postes à Anatel: estar no cadastro positivo é o que separa o provedor regular do cabo clandestino na hora do reordenamento.
  • Reveja contratos antigos à luz do novo modelo: com o posteiro assumindo a gestão, cláusulas de preço e de retirada de cabos serão renegociadas.
  • Provisione o custo por ponto no plano de expansão de rede. O poste deixou de ser custo esquecido e virou linha de planilha.
  • Participe das consultas públicas de precificação: pequenos provedores são os mais afetados e os menos ouvidos quando não aparecem.
Poste organizado é cidade mais segura, conta de luz mais justa e banda larga mais barata. É pauta de consumidor, não só de empresa.
Bloco 3 • Postes
BLOCO 4 / TAXAS DE FISCALIZAÇÃO

Quanto custa ser fiscalizado no Brasil?

TFI e TFF alimentam o Fistel desde 1966. Em 2026, a conta foi parar no STF, ganhou defesa da AGU e uma isenção histórica para o IoT.

Bloco 4 • Taxas
Taxas / como funcionam

Duas siglas, um fundo, sessenta anos

TFI

Taxa de Fiscalização de Instalação

Cobrada na emissão da licença de operação de cada estação de telecomunicações, conforme tabela anexa à Lei 5.070/1966.

TFF

Taxa de Fiscalização de Funcionamento

Cobrança anual sobre as estações licenciadas no ano anterior. Vale 50% do somatório da TFI. Em 2026, o prazo de pagamento foi até 31 de março.

Fistel

O fundo que recebe tudo

Criado em 1966 para custear a fiscalização. Na prática, parte da arrecadação abastece também o Tesouro, o Fust e outros fundos. É aí que mora a polêmica.

Bloco 4 • Taxas
Taxas / a disputa

Operadoras no STF, AGU na trincheira

  • 2025: Acel e Abrafix acionam o STF alegando que a arrecadação de TFI e TFF supera em muito o custo real de fiscalizar. Relator: ministro Alexandre de Moraes.
  • AGU responde: o custo da fiscalização da Anatel em 2024 ficou em R$ 751 milhões, próximo da arrecadação, e as alíquotas não sobem há décadas.
  • mar/2026: Justiça Federal confirma a legalidade e a constitucionalidade das taxas em ação movida por operadora, aceitando a tese da AGU de que não é exigida correspondência estrita entre arrecadação e custo de cada ato.
  • dez/2025: Anatel publica a Súmula 28: estações de IoT e M2M ficam fora do licenciamento prévio e isentas de TFI, TFF e CFRP, por ausência de fato gerador.
R$ 751 mi
custo declarado da atividade de fiscalização da Anatel em 2024, segundo levantamento da PFE/Anatel citado pela AGU
Súmula 28
a isenção que destravou o IoT no Brasil, de sensores agrícolas a telemetria urbana
Bloco 4 • Taxas
Síntese

O mapa de agora até 2027

Governança

Defender o modelo multissetorial

Eleições do CGI.br e regulamentação do Marco Civil vão redesenhar quem decide sobre a rede. Participação não é opcional.

Regime jurídico

Migrar antes do prazo

Outorga SCM, modelo tributário refeito e caixa simulado para o mundo pós Norma 4, que estreia junto com a CBS.

Infraestrutura

Regularizar a rede física

Contratos de poste declarados, custo por ponto provisionado e presença ativa nas consultas de precificação.

Custo regulatório

Acompanhar o STF e a Súmula 28

A revisão das taxas do Fistel e a isenção do IoT mexem diretamente no custo de operar e de inovar.

O fio condutor: 2026 e 2027 concentram a maior reorganização do setor desde a Lei Geral de Telecomunicações. Quem entender as regras agora escreve as próprias condições depois.

Síntese
Obrigado

A internet é feita de cabos, normas e gente. Cuidemos das três coisas.

Percival Henriques de Souza Neto
IX Fórum • Campina Grande, Paraíba
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